O tempo que não se otimiza
Nem toda hora do dia precisa render. Algumas das experiências que mais importam só podem ser percebidas quando deixamos de medir o tempo pelo que conseguimos fazer caber dentro dele.

Outro dia me dei conta de que minha filha mais velha já não queria mais que eu escolhesse suas roupas.
Não sei exatamente quando isso aconteceu. Aos poucos, vieram as escolhas próprias, uma maquiagenzinha leve, um cuidado diferente com a aparência, uma vaidade que antes não estava ali. Pequenos sinais de uma menina que começa a deixar para trás algumas coisas da infância e a ensaiar os primeiros passos em direção à adolescência.
E aquilo me atravessou de um jeito que eu não esperava.
Não porque eu não queira vê-la crescer. Pelo contrário. Há algo muito bonito em acompanhar uma filha descobrindo seus gostos, fazendo suas escolhas, tornando-se cada vez mais ela mesma. Mas, ao mesmo tempo, percebi que uma fase da nossa vida estava começando a mudar.
Talvez uma das coisas mais desconcertantes sobre a passagem do tempo seja justamente essa: quase nunca percebemos enquanto ela está acontecendo.
A vida não costuma nos avisar: preste atenção, isso aqui não vai durar para sempre.
Ela simplesmente segue.
Tenho vivido algo parecido na outra ponta da minha história. Meus pais estão envelhecendo e algumas questões de saúde começaram a trazer para mais perto uma consciência que, durante muito tempo, conseguimos manter distante: nossos pais também envelhecem.
E chega um momento em que fazemos uma conta que preferiríamos não fazer. O tempo que ainda teremos juntos talvez seja menor do que aquele que já tivemos.
Talvez tenha sido entre uma filha crescendo e meus pais envelhecendo que comecei a olhar de outra maneira para o meu próprio tempo.
Não como uma contagem regressiva. Também não com aquela ideia de que precisamos aproveitar cada segundo da vida — porque até isso pode virar mais uma cobrança. Mas com uma pergunta que tem aparecido para mim com cada vez mais frequência:
Onde estou enquanto a minha vida acontece?
Vivemos uma época fascinada pela otimização.
Queremos administrar melhor o tempo, organizar a agenda, produzir mais, dormir melhor, treinar melhor, trabalhar melhor. Criamos ferramentas para ganhar minutos, automatizamos tarefas, aceleramos processos. E, muitas vezes, quando finalmente conseguimos liberar algum espaço, rapidamente encontramos outra coisa para colocar ali.
Até o descanso pode ganhar uma função. Descansamos para produzir melhor depois. Meditamos para aumentar a concentração. Caminhamos ouvindo alguma coisa que precisamos aprender. Almoçamos respondendo mensagens.
Eu me reconheço em várias dessas cenas.
Gosto de organizar meus dias. Tenho trabalho, projetos, compromissos, uma família, coisas que quero realizar. Não penso que exista algo errado nisso.
O que tenho me perguntado é outra coisa: em que momento começamos a acreditar que todo tempo precisa servir para alguma coisa?
Porque há uma parte da vida que não se deixa otimizar.
Uma conversa que se prolonga. Uma refeição sem pressa. Um silêncio que não precisa ser preenchido. Uma tarde qualquer com os nossos pais. Uma filha contando alguma coisa aparentemente pequena enquanto estamos fazendo outra coisa.
Nada disso parece extraordinário enquanto acontece.
E talvez esteja justamente aí o seu valor.
Na clínica, aprendi a prestar atenção à distância que às vezes se instala entre aquilo que dizemos ser importante e a maneira como, de fato, estamos vivendo.
Podemos dizer que a família é prioridade e oferecer a ela apenas o tempo que sobra. Podemos valorizar nossos vínculos e estar sempre com pressa quando alguém quer conversar. Podemos desejar uma vida menos acelerada e preencher cada espaço vazio assim que ele aparece.
Não necessariamente porque não sabemos o que importa. Às vezes sabemos muito bem.
Mas é fácil sermos levados pelo fluxo dos dias.
Por isso, estar presente, para mim, não significa viver permanentemente atenta, serena ou consciente. Eu não conseguiria. E transformar presença em mais uma meta a cumprir me parece contraditório.
Talvez presença seja algo mais simples: perceber quando me afastei daquilo que importa e poder voltar.
Voltar para a conversa. Para a refeição. Para quem está diante de mim. Para o corpo que pede descanso. Para uma filha que está crescendo agora. Para os meus pais, que estão envelhecendo agora. Para a minha própria vida, que também está acontecendo agora.
E talvez seja por isso que minha ideia de sucesso esteja mudando.
Continuo gostando dos meus projetos, do meu trabalho, das coisas que quero construir e realizar. Não quero abrir mão disso.
Mas tenho pensado que existe outra medida de sucesso, bem menos visível.
Reconhecer o que importa enquanto ainda está diante de nós.
Ter tempo para quem amamos. Fazer escolhas mais próximas daquilo que dizemos valorizar. Perceber uma fase da vida enquanto ainda estamos vivendo aquela fase. Não deixar sempre para depois aquilo que insistimos em dizer que é essencial.
Talvez uma vida bem-sucedida também seja uma vida da qual conseguimos participar.
Minha filha continuará crescendo. Meus pais continuarão envelhecendo. E eu também.
Não há presença capaz de interromper esse movimento. Nem é esse o objetivo.
O que podemos escolher é como queremos estar enquanto ele acontece.
Tenho percebido que algumas das coisas mais importantes da minha vida não cabem numa lógica de produtividade. Não podem ser aceleradas, acumuladas ou guardadas para depois.
Elas precisam ser vividas enquanto estão acontecendo.
Talvez por isso eu esteja menos interessada em fazer o tempo render e mais interessada em perceber para onde ele está indo.
Porque há uma parte da vida que só existe enquanto estamos lá para vivê-la.

Rafaela Gualdi é psicóloga clínica há mais de 20 anos e atende adolescentes e adultos a partir da Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT). Seu olhar para a psicologia parte do interesse pelas relações entre saúde emocional, valores, escolhas e a construção de uma vida com sentido em meio às exigências da vida contemporânea. Em seus textos, aproxima a experiência clínica da vida cotidiana e das perguntas que atravessam a experiência humana.



